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CRÓNICAS DE TODO O ANO

Nazaré, um refúgio Luís Araújo

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Quantas vezes me refugiei neste cantinho protector, nesta Nazaré, tão acolhedora. Não sei concretamente porquê, vivia sozinho na grande Lisboa e o meu trabalho era a Imprensa. A emoção misturava-se com o tempo autoritário e a política andava na boca de toda a gente, desmanchando amizades e destruindo esperanças. Foram tempos dolorosos em que procurei a solidão como refúgio e foi aqui que a encontrei.

Deixava o carro aqui mesmo em baixo, na praça Sousa Oliveira, subia no elevador e entrava numa rua junto ao paredão, muito perto ao nicho da Senhora da Nazaré. Ficava ali extasiado por momentos, o mar imenso estava a meus pés, despia o casaco cinzento em que a alma vinha embrulhada e, a pouco-e-pouco, começava a reconhecer-me. Era como a Renascença do homem que de Lisboa tinha partido em busca de paz interior.

Começava então a receber aquela seiva de energia conduzida pelo vento que trazia o feitiço do mar, uma paixão ansiosa por ele. A sua imensidão aconselhava-me a procurar no futuro a sua protecção. E ali ficava, sentado, debaixo de um chapéu, e uma mesa, aquele mar regenerador que vinha procurar de tão longe, aquele mar que me recebeu em menino, onde com os meus filhos, depois, brinquei na praia aquilo que o não tinha feito em menino, as regras eram mais apertadas e quem dava o banho de mar era o banheiro, eram só acompanhados por ele que os meninos podiam lá ir.

Com a mente tranquila, agora despida e repousada, ainda era muito cedo para almoçar, ficava ali olhando o que me rodeava, no pequeno fogão de ferro fundido já se assavam sardinhas, uma rapariga nova e uma senhora mais velha, muito atarefadas, eram os proprietários de uma pequena taberna e das mesas, serviam almoços na esplanada, de vez em quando aparecia um outro senhor que estava ao balcão e dava instruções.

Pedi um copo de vinho branco, era um vinho do Oeste, talvez do Cadaval, de Torres ou do Bombarral, se fosse tinto seria capaz de o reconhecer mas era muito frutado, seco e agradável. Deliciei-me com o aperitivo e juntei-o ao prazer que os meus olhos disfrutavam, voltaram as meditações, lembrei os amores de que desfrutei na Nazaré, outros amores dispersos e episódicos, daqueles que riscaram o coração ainda jovem mas que, mesmo cicatrizados, ainda perduram. Saudades românticas, de troca de mãos e de olhares que se recordam sempre, deixando-me ainda a pergunta: Porque será que raras vezes casamos com a pessoa indicada, aparece sempre, mais tarde, aquela que nos estava destinada e, normalmente, já casada também, acarretando o mesma dúvida?

Levantei-me da mesa e entrei no estabelecimento, conversava-se sobre o mar, eram tripulações de barcos de pesca em descanso, lá para a noite voltariam de novo, o patrão que estava ao balcão também o devia ter sido, recebeu-me com cortesia e disse que alguém iria, dentro de momentos, servir o almoço, sardinhas assadas com pimentos que ali estavam a ser servidas em outras mesas, cheirosas, apetitosas e tentadoras.

Regressei ao meu lugar de vigia, lá em baixo, a praia ondulava de gente como o mar de ondas, continuava a falar-me ao ouvido, passaram-me pela mente outros tempos mais afastados mas o sítio era o mesmo, parecia-me que as pessoas também, e é assim, vão-se os pais ficam os filhos, vão-se os filhos ficam os netos, porque as caras, e os caracteres continuam os mesmos, a gente da Nazaré nunca morre, substitui-se, seja que geração for, será sempre assim, desafiando o tempo. Eles são a garantia da hospitalidade portuguesa e não precisam de campanhas publicitárias.

Depois, geralmente, todos os fins-de-semana, fazia esta peregrinação, era ali que ia renovar as energias para a nova semana que se aproximava e outras se seguiriam, tornei-me mais conhecido daquelas tripulações que ali iam beber um copo e conversar sobre mar ou do momento político que, dolorosamente, se atravessava, mas uma coisa me ensinaram: que de política nunca deve ser falada com paixão nem em detrimento da amizade ou do bom convívio cívico. Porque nunca eu soube das suas preferências políticas, nem ninguém perguntou ou disse. Agora venham-me dizer que o povo português é analfabeto…

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