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EU PESCADOR ME CONFESSO

ÁLIBI…ALI BÁ…ALI BABÁ…

Armando Lopes

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O Governo vive em estado de estupefacção permanente. Fica espantado com o aumento do desemprego, com o aumento do défice, com o aumento da recessão, com o aumento da dívida, com a diminuição da receita (apesar do aumento de impostos), com as decisões do Tribunal Constitucional. Só não fica espantado com a sua incapacidade para prever as desgraças nem com a sua incompetência na execução orçamental, as verdadeiras razões de espanto. Procura agora arranjar um álibi para justificar os seus reveses, mesmo estando antecipadamente avisado do seu aparecimento.

Toda esta perplexidade não ocorreria se Passos Coelho conhecesse, de facto, a situação do país em 2011, como repetidamente o afirmou em campanha eleitoral. Se isso acontecesse, não teria feito as promessas que fez e não cumpriu nem teria contribuído com a sua irresponsabilidade para a fragilização do país. Por estar profundamente mal informado, o homem que derrubou o anterior Governo, afirmando com arrogância que havia um limite para os sacrifícios, estava longe de imaginar que, decorridos dois anos, iria conformar-se com o facto de os sacrifícios não terem limite.

Acontece que, os democratas de Abril de 74, não lutaram para substituir a tirania de um ditador pelos privilégios de uma minoria ou o domínio de uma casta de interesses. Deram-nos um país novo, com um Governo, um Presidente e uma Assembleia da República eleitos pelo povo e para o povo. E foi esse povo que estabeleceu que, um país decente, devia cuidar dos mais fracos e vulneráveis, protegendo-os dos infortúnios e dos perigos da vida. O país decente que nos propusemos construir, não pode portanto ser este em que uns poucos estão muito bem e um número cada vez maior não o está. Porque a prosperidade deve assentar sobre os ombros largos de uma crescente classe média. E isso só acontecerá quando cada pessoa encontrar independência e orgulho no seu trabalho, quando a um trabalho honesto corresponder um salário digno.

A verdade é que, agora, manda em Portugal uma categoria de gente ignorante e interesseira. Que nunca soube ou, então, já se esqueceu de como é viver na pobreza e com sacrifícios. Que nunca teve dificuldade para arranjar emprego, para subsistir ou para subir na vida. E que confunde o controlo das despesas com a desobrigação do Estado de ser um refúgio de esperança para os pobres, os doentes, os marginalizados, os indefesos, as vítimas da infelicidade ou do preconceito.

O que verdadeiramente nos indigna, nos tempos que correm, não é a visão distorcida da realidade, é a insensibilidade e a frieza com que se tratam as pessoas. Ignorando o seu bem-estar e o seu direito à igualdade de tratamento e de oportunidades. Desrespeitando o seu passado e desprezando o seu futuro.

Infelizmente a Grécia, Chipre, Portugal, a Espanha, a Irlanda, a Itália, a Eslovénia, a Bélgica vão estourar. E quando a União Europeia, liderada pela prepotente Alemanha, estiver com estes cadáveres nos braços, talvez perceba o desastre que constituiu a utilização de Governos-fantoche para atingir determinados objectivos. Porque o projecto europeu não se destinava ao exercício da caridade para com os pobrezinhos. O projecto europeu tinha como estratégia a implementação de políticas conjuntas de desenvolvimento, em que cada cidadão passaria a ter acesso a direitos básicos como: saúde, educação, habitação e segurança. Sem espoliações nem roubos e, principalmente, sem deixar atrás de si este rasto de destruição e de miséria.

Armando Lopes

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