Valdemar RodriguesProf. UniversitárioHouve um tempo, há não muito deslembrado, em que os faróis tinham faroleiros. Era o tempo da luta das classes e dos trabalhadores por uma vida mais digna, por um tempo com mais tempo para aprender, para fruir, para descansar. Esse tempo findou enleado em si próprio. Pois a aprendizagem tornou-se mercadoria, a fruição infinita e o lazer sepultou o homo faber. Sempre, no horizonte, a escravatura. Desta vez ser escravo por opção, que é como quem diz, existir sem ser julgado necessário. Os faróis continuam por isso a cintilar, mas agora sem faroleiro que os alimente ou dirija. Sobre isto falou Agostinho da Silva, esse grande português do Quinto Império que a saudade nos traz e que muitos já não lembram. Agostinho não via o trabalho com bons olhos, sobretudo quando ele não implicava a criação. Agostinho acreditava numa economia onde os homens pudessem viver sem a necessidade de se comprarem ou venderem. Uma economia de pura abstracção onde a satisfação pelo simples facto de existir na Terra como Homem pudesse ser a moeda mais valorizada, a mais aceite e a mais duradoura. Agostinho sonhava, é claro, mas era então o sonho que distinguia os homens das bestas, juízo que hoje já não é tão seguro.
Portugal, uma das nações mais antigas da Europa, fenece hoje como um farol envergonhado a quem os sonhos como a luz abandonaram. E os faroleiros caem tementes da tempestade que não foi. Como jesuíta cuja educação não renegava, Agostinho era um homem profundamente humanista. Hoje, se vivo fosse, impressioná-lo-ia uma tão extensa costa de faróis sem faroleiros, mas mais ainda com certeza o haver tanta gente sem sonhos ou sonhos tão planos e com tão pouca gente. Uma assimetria, podia dizer-se, entre aquilo que podia ser e aquilo que é cada vez mais, o deserto, a casa assaltada sem ninguém que a defenda. Não era isso que António Vieira sonhara, nem era isso que a esta tão antiga Nação mais convinha. Nacionalismos à parte, era bom não sentirmos vergonha daqueles que nos precederam, daqueles que tão longe sonharam e quiseram universalmente, cristalizando o seu querer nesse símbolo de amizade e fraternidade que a Esfera Armilar tão bem representa. Era bom que não fôssemos cobardes ao ponto de esquecermos quem fomos e donde vimos; ao ponto de nos fecharmos nessa célula sombria e sem esperança chamada resignação, seja lá o que isso for. Não foi por um dia embarcarmos do Tejo para as marítimas viagens que perdemos a idependência, e não será agora se cá ficarmos que havemos de perder o rumo da história. O nosso lugar é, e sempre foi, o Mundo, e o nosso viver a procura, reinventando sempre aquilo a que chamámos saudade. Procurámos fora o que cá não havia, as encantadoras pimentas, e haveremos também de encontrar por cá aquilo que muitos infelizmente já esqueceram. Nesta Ode Marítima sem navegadores exímios e sem fiáveis cartas de marear, resta pedir que não nos tomem por ignaros, e não nos joguem pela borda aos temíveis crocodilos. O respeito ficam bem a quem governa e conhece bem o seu povo, seja em que regime for. Já percebemos que os faróis dispensam faroleiros, mas tarde ou cedo haveremos de mostrar que eles são afinal preciosos, mesmo em regime de mobilidade especial ou flexibilizados por laborais directivas, quanto mais não seja para fascínio e comunhão dos marinheiros. Territórios sem povo não são Estados, e governantes sem governados são apenas gente que obedece, como qualquer escravo, enquanto existir Humanidade. A paz na diferença ainda é possível.Por isso não lutemos uns contra os outros. Abramos os olhos para o irmão de outras paragens, por vezes tão longínquas como Dili ou Bombaim, e reparemos como a Natureza nos fez tão semelhantes. Não lutemos uns contra os outros, antes abramos os olhos para o sinistro inimigo comum que nos assola diariamente em casa ou no trabalho, entre noticiários tenebrosos e novelas moralistas, e cujo único objectivo é o de liquidar-nos mansamente, sem percebermos quem nos matou. O de liquidar-nos pelo cansaço e pela exasperação. Por favor revoltemo-nos, mas contra aqueles que mais interessam: não contra os fantasmas de nós mesmos e da nossa culpa, ou daqueles para quem o mundo se tornou demasiado pequeno.




0 Comentários