Lúcia Serralheiro, Benedita 1 de Outubro de 2006 Mariana Alcoforado, mulher de clausura do convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja colocou a sua paixão pelo Marquês de Chamilly no espaço europeu, quando foram publicadas as suas cartas de amor (França 1669, 1.ª ed.) com o título de ‘Lettres Portugaises’.
Anos e anos houve que passar, até que as palavras de Mariana reecoassem nas vozes de outras mulheres, com outros olhares ou quiçá os mesmos. ‘Novas Cartas Portuguesas’ (Lisboa, 1.ª ed. 1973), de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, que ficaram conhecidas pelo célebre caso das três Marias. Desta vez o escândalo passou rapidamente para o exterior e não só para a Europa como também nas universidades da América. Parecia impossível que no final do séc. XX existissem em Portugal interdições à escrita das mulheres, suas paixões, seus corpos e mentes que eram e são ainda nalguns aspectos, veja-se as questões do aborto, um vexame anacrónico. Contudo Beja, essa cidade da planície alentejana emerge de novo. Outras palavras, outras paixões andam e desandam por todo o lado porque essa outra Mariana, Cristina Taquelim, um nome a reter, voltou a colocar Beja em destaque nas noites e dias de ‘As palavras Andarilhas’ …Muita gente aí acorre em Setembro, e os que não se inscrevem de imediato ficam de fora! É um viver e reviver de recordações dos tempos de criança, dos tempos de crescer e até de morrer! Na gruta escutam-se palavras, enredos maravilhosos, às vezes medos, e ideias espantosas… Quem as descobriu ou inventou? Fica sempre esse espanto e a certeza de que não se percebe bem como se entra nesse mistério quando nisso se pensa…com as nossas palavras ou simplesmente nas lembranças das vozes…das/os contadoras e contadores!E por que chamam ‘andarilhas’ a estas palavras? Voam de boca em boca e não só! À entrada da gruta havia um mapa de Portugal assinalado de ziguezagues ….É o caminho que este ano vão ter de correr pelo país fora… Depois das conferências, oficinas, feira do livro, sessões de narrações extensivas também a todas as escolas do concelho, o evento ganha pernas e rompe a cirandar. Começa então a Estafeta de Contos. Em breve chegará ao Agrupamento de Escolas da Benedita e daí segue para a Biblioteca Municipal de Porto de Mós. O testemunho vem numa caixa de madeira grande, o livro da estafeta, onde já se encontram as narrativas escutadas nos locais anteriores e onde dá entrada o conto que vai ouvido por ocasião da visita da estafeta, que também aqui ouve e narra uma história. O mesmo se irá passar na etapa seguinte a realizar no mesmo dia.As ‘palavras andarilhas’ comemoraram este ano, oito primaveras com uma novidade! A partir de agora, cada estafeta introduz o conto com a recitação de um poema de um autor/a. Inicia-se esta fase com ‘O Brincador’ de António Magalhães, homenageando-o pelos seus 25 anos de carreira literária.Este acontecimento, que atrai contadores/as de muitos países, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Beja/ Biblioteca Municipal de Beja e da Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja. Bem hajam por este maravilhoso trabalho em prol da protecção das palavras no que têm de melhor, sempre que se entretêm a tecer histórias de encantar… Elas sobrevivem com as nossas vozes e os nossos ouvidos! Há que cuidar do seu habitat! Vivam as palavras andarilhas!




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