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A hora dos veteranos: Sérgio Godinhoe Rão Kyao em São Martinho

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Baía Azul Summer Fest encerra a 9 e 10 de AgostoDavid Mariano São dois pesos-pesados da música nacional e vão passar a sua “juventude” pela baía de São Martinho do Porto durante este Verão: Rão Kyao e Sérgio Godinho, que representam no mínimo duas lendas vivas da nossa história cultural recente, são os nomes que […]

Baía Azul Summer Fest encerra a 9 e 10 de AgostoDavid Mariano São dois pesos-pesados da música nacional e vão passar a sua “juventude” pela baía de São Martinho do Porto durante este Verão: Rão Kyao e Sérgio Godinho, que representam no mínimo duas lendas vivas da nossa história cultural recente, são os nomes que irão fechar o cartaz do Baía Azul Summer Fest nos próximos dias 9 e 10 de Agosto, respectivamente. A idade para eles não conta e o que conta, tanto num caso como no outro, são carreiras exemplares de coerência artística e vigor criativo que continuam a encontrar no contacto com o público ao vivo a sua melhor manifestação. Depois de Toumani Diabaté mais a sua Symmetric Orchestra, depois de Rabih Habou-Khalil em parelha com o fadista português Ricardo Ribeiro e dos estreantes Deolinda, a vez agora é dos veteranos: Sérgio Godinho e Rão Kyao guardam décadas de memória nacional nas suas melodias e letras e vão cantá-las à beira do mar para várias gerações. Comecemos por aquele que hoje talvez diga menos à geração Y, mas que durante os anos 1980 conquistava tops nacionais a tocar flautas de bambu e a recuperar das raízes o legado da música popular portuguesa.

Dito assim, João Ramos Jorge é um nome que dirá pouco à maioria, mas é ele que está por trás de Rão Kyao, título adoptado em 1975 graças ao seu fascínio pela cultura e sabedoria oriental (o músico viveu, aliás, parte da sua infância em Macau). Foi pelo jazz que começou: Rão Kyao aos 19 anos estreava-se em público como saxofonista tenor e era já uma presença assídua da noites do Hot Club em Lisboa. Ao artista deve-se um marco histórico da música nacional: “Malpertuis”, álbum de 1976, torna-se o primeiro disco de um músico português a gravar jazz no país.O que se segue é um percurso semeado pela vontade e determinação em cruzar diferentes linguagens musicais (sem nunca deixar o jazz de lado) que conhece um enorme sucesso de vendas durante a década de 1980 com discos como “Fado Bailado” e “Estrada da Luz” até à completa erosão mediática e ao esquecimento no final dos anos 1990. Mas Rão Kyao nunca chegou verdadeiramente a sair de cena e persiste na sua batalha em combinar os universos distintos da música erudita e popular da qual o seu mais recente trabalho, “Porto Interior”, continua a ser um claro exemplo.Para sábado, dia 9 de Agosto, pelas 22h, estão prometidos alguns clássicos de jazz com o reportório de outros quadrantes musicais que Rão Kyao tratará de interpretar em conjunto com a Summer Jazz Orchestra. Quem se deslocar a São Martinho do Porto nessa noite arrisca-se a encontrar um passado de nostalgia e um monumento de memórias nacionais que durante mais de 30 anos e 17 discos depois continua a marcar presença e a evocar uma das contribuições musicais mais ricas no nosso espaço nacional.Sérgio Godinho com mais ou menor destaque, mas com igual longevidade, entra para o último dia do Baía Azum Summer Fest como uma das grandes personagens culturais da nossa contemporaneidade que, ano após ano, continua a entusiasmar com os seus discos de originais e as suas poesias tocantes. Desde “Os Sobreviventes”, o seu primeiro álbum de 1971 editado no exílio e em solo francês, que o músico português não cessa de cantar a alma portuguesa e os seus grandes dilemas.A prová-los estão aí os seus trabalhos mais recentes: “Ligação Directa” e o registo ao vivo “Nove e Meia no Teatro Maria Matos”, sendo este último a base na qual o espectáculo de São Martinho Porto se irá concentrar (relembramos que foi este disco que recuperou o tema da série televisiva “Os Amigos do Gaspar”, intitulado “É tão bom”). Todos os clássicos obrigatórios cabem aqui: “Com um brilhozinho nos olhos”, “O primeiro dia”, “Arranja-me um emprego” e “Espectáculo”, convivendo lado a lado com novas composições como “Às vezes o amor” ou “Só neste pais”. De uma coisa estamos certos: num dia como no outro, vamos ser mais portugueses do que alguma vez fomos na última década.

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