Luís Estrelinha quer que os médicos que trataram a sua filha em Portugal sejam responsabilizadosClínicos não deram esperanças de salvação a menina da NazaréDois médicos do Hospital Pedro Hispano são acusados de negligência na assistência dada a menina com tumor na garganta, que foi depois salva em França.Joana FialhoMário Resende e Artur Vaz, neurocirurgiões do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, estão a braços com processos disciplinares instaurados pela Inspecção Geral de Saúde (IGS) por suspeita de negligência e violação do dever de zelo na assistência prestada a Salomé Estrelinha, residente na Nazaré, a quem em 2003 foi diagnosticado um tumor benigno na garganta.
Na origem dos processos está uma averiguação ao caso feita pela IGS depois dos pais da menina, agora com dez anos, terem apresentado queixa, com base em “abordagens erradas ao tumor, prótese mal colocada, radioterapia inadequada e falta de informação”, conforme contou ao REGIÃO Luís Estrelinha, o pai da menina. Luís Estrelinha esclareceu ainda que no relatório da IGS é referido que os médicos portugueses ter-se-ão precipitado quando informaram os pais de que “nada mais havia a fazer”. O relatório conclui ainda que as técnicas escolhidas podem não ter sido as mais correctas para o caso e que os médicos erraram por não esclarecerem os pais das alternativas de tratamento, dos riscos e probabilidades de sucesso de cada uma delas, retirando aos pais a possibilidade de optarem pelo tratamento da doença da Salomé e violando o dever geral de zelo que assiste todos os médicos. Por isso, os pais da menina vão apresentar queixa ao Ministério Público, “pois ainda há muita coisa para provar”.A história da SaloméO caso remonta a 2003 quando após uma queda numa aula de patinagem Salomé, então com sete anos, se começou a queixar de dores cervicais. Os exames médicos que se seguiram foram claros: a menina tinha um tumor que, se não fosse tratado, a deixaria tetraplégica e poderia mesmo matá-la.A 9 de Julho do mesmo ano foi feita a primeira cirurgia no hospital de Matosinhos, onde foi retirado parte do tumor e foi colocada a Salomé uma prótese. Cerca de cinco meses depois, os primeiros problemas neurológicos começaram a manifestar-se: Salomé arrastava o pé esquerdo e já não conseguia levantar um braço, ficando tetraplégica pouco tempo depois.Novos exames médicos revelaram que o tumor tinha voltado a crescer e a Salomé voltou a ser operada nos primeiros dias de 2004. No entanto a menina não melhorou e em Fevereiro estava novamente paralisada, pelo que os médicos responsáveis pelo caso prescreveram um tratamento agressivo de radioterapia. Dois meses mais tarde a Salomé voltou a perder a força muscular e, segundo Luís Estrelinha, numa consulta de neurocirurgia o médico informou a família de que “não havia mais nada a fazer e que não podiam fazer milagres”.A cura em França Desesperados por verem a filha tetraplégica e a morrer, os pais da Salomé decidiram consultar especialistas franceses e levaram a menina para o Hospital Lariboisière, em Paris, onde lhes foi dito que “em Portugal só foram feitos disparates, os métodos cirúrgicos não tinham sido adequados, a prótese tinha sido mal colocada e a radioterapia não era solução”. Depois de uma cirurgia prolongada e de alto risco o tumor foi retirado na totalidade e Salomé, ultrapassando um pós-operatório extremamente complicado, recuperou a sua mobilidade. O sucesso desta cirurgia ficou a dever-se à técnica utilizada pelos especialistas franceses, que permitiu a remoção de todos os tecidos lesados pelo tumor. Quando saiu do hospital francês, três meses depois da cirurgia, Salomé era uma menina autónoma do ponto de vista alimentar e respiratório e recuperava animadoramente a capacidade motora. Hoje, a Salomé é, de acordo com o seu pai, “uma menina que pula, ri e brinca como todas as outras crianças. A única coisa que a distingue é ser acompanhada anualmente em França pelos médicos que a salvaram da morte”.




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