O desespero de quem em cerca de dez minutos perdeu a maioria das culturasTemporal de chuva e granizo da passada quarta-feira destruiu culturas agrícolas nos concelhos de Alcobaça e NazaréAgricultores da região da Cela e Valado dos Frades viram as suas culturas serem destruídas com o forte temporal da passada quarta-feiraLiliana JoãoO Forte temporal – com queda de chuva e granizo – que no final da tarde da passada quarta-feira se abateu sobre os concelhos da Nazaré e Alcobaça, destruiu cerca de duas centenas hectares de culturas nos campos de cultivo pertencentes às freguesias da Cela, Bárrio e Valado dos Frades.
“Se a chuva viesse sozinha nada disto tinha acontecido, mas o granizo que caiu fez estragos irremediáveis”, lamentou ao REGIÃO, Vítor Eusébio, natural da Cela Velha, acrescentando que “o meu pai, que tem 75 anos e nunca tinha visto granizo cair assim, principalmente em Junho”. As culturas de Vítor Eusébio ficaram “na totalidade praticamente estragadas com prejuízos que rondam os 75 por cento do total dos cultivos em quatro hectares, e que representam mais de 50 mil euros de danos”. “No espaço de sete, oito minutos caiu granizo como nunca tinha visto. As pedras de granizo eram praticamente do tamanho de ovos, e em tão pouco tempo, destruíram tudo”, explicou “desesperado” Vítor Eusébio. Couve lombarda, batatas, feijão verde, alho francês, brócolos, couve-flor são algumas espécies hortícolas que ficaram destruídas com o temporal, sendo opinião unânime, que as colheitas serão “para eliminar por completo”, ainda que a grande maioria dos agricultores esteja a fazer o levantamento dos prejuízos, como são os casos de João Carvalho e João Moreira, naturais de Valado dos Frades, mas proprietários de três hectares de terra nos campos da Cela, e que não têm dúvidas em afirmar que “não vamos tirar nada da terra, e vamos ter de derreter tudo para se partir para um próximo cultivo”. “Serão milhares de quilos de hortícolas e fruta que não terão recuperação”, afirmou Vítor Eusébio, uma opinião partilhada por António Ruivo, de Valado dos Frades, e dono de nove hectares de pomares. “Tenho cerca de 60 toneladas de fruta estragada”, contou o agricultor, que desde que há 30 anos exerce a profissão, confessa nunca ter visto cair granizo como o que caiu no passado dia 14.“Agricultores como eu, que cultivam apenas fruta, estamos um ano à espera do nosso produto, depois de as árvores terem sido podadas, coradas e tratadas, com este mau tempo, vimos o trabalho de um ano inteiro arruinado”, explicou António Ruivo que “não menospreza” os danos dos horticultores que “tiveram sem dúvida um grande prejuízo, mas quem tem pomares, viu cair por terra todas as esperanças de uma colheita anual”. Daniel Soares, agricultor hortícola, confessa que “apesar de ter tido um grande prejuízo” ainda vai fazer mais culturas, ao contrário dos fruticultores, que “não podem voltar a plantar para colher o seu produto”. Maçã, pêra rocha, ameixa e vinhas foram algumas das espécies frutícolas mais afectadas no temporal. Levantamento dos prejuízos em curso“Vamos trabalhar no campo das hipóteses e não das certezas em termos de serem atribuídas algumas compensações”. Era assim, poucas horas após o dilúvio, que o presidente da Junta de Freguesia do Bárrio, Orlando Pereira, explicava ao REGIÃO a acção que vai desenvolver em conjunto com a Juntas de Freguesia da Cela e de Évora, Associação de Agricultores da Região de Alcobaça (AARA) e a Associação de Regantes da Cela (ARC). “Vamos fazer um levantamento dos prejuízos dos agricultores lesados”, explica, por sua vez, José Dionísio, presidente da Junta de Freguesia da Cela. De acordo com o autarca, “estarão disponíveis até hoje, (dia 21) nas três Juntas de Freguesia e nas duas associações, boletins onde os agricultores se identificarão, designarão o tipo de cultivo que desenvolvem e os prejuízos que tiveram”. Pedro Calado, presidente da AARA assegurou ao REGIÃO que “depois de feito o levantamento dos prejuízos, os dados serão entregues ao ministério da Agricultura”, justificando que “avançámos com este levantamento, porque queremos respostas rápidas ao problema, e não queremos que os lesados fiquem à espera de um técnico para avaliar os danos, que só poderia aparecer passado muito tempo”. Este processo de inventário dos prejuízos, segundo o presidente da AARA, “será uma base para que se possa reivindicar qualquer coisa, por muito pouco que seja”. Quando se fala em apoios do Estado, os agricultores não se mostram muito confiantes já que “são prejuízos muito grandes e atingiu regiões em vários pontos do país”, como confessou Vítor Eusébio, adiantando contudo que “a criação de uma linha de crédito a juros bonificados, seria uma boa hipótese para ajudar os agricultores”. Com 410 associados, a ARC também tenta “salvaguardar ao máximo” os prejuízos dos agricultores “lesados”, como referiu ao REGIÃO, Deonilde Correia, presidente da ARC, que afirma ser “ainda muito cedo para falar em subsídios por parte do Estado, já que nem conhecemos as verbas disponíveis para acudir a este tipo de situação”. Apesar de nenhum dos presidentes das cinco entidades envolvidas neste “levantamento dos prejuízos”, o confirmar, o presidente da Junta de Freguesia do Bárrio revela ter “alguma esperança que vamos conseguir ajuda para esta gente, que teve um enorme prejuízo e que neste momento estão desesperados”. Culturas sem seguro devido aos custos “A maioria dos agricultores não tem seguro”, confessou Fernando Soares, agricultor do Bárrio, sustentando que “ser agricultor actualmente, só o é quem gosta, porque isto já não dá dinheiro nenhum. Com os preços dos pesticidas e do gasóleo a aumentarem e com o nosso produto cada vez mais barato, não há dinheiro para segurar as produções”. Pedro Calado, presidente da AARA, sustenta que “a grande maioria dos agricultores não faz seguros, apesar de haver uma comparticipação até 75 por cento por parte do Governo”. o dirigente da AARA admite que “as culturas não estão seguros, não pelos valores dos prémios dos seguros serem elevados, mas sim, porque se ganha cada vez menos na agricultura, tornando-se o seguro um gasto acrescido para o agricultor, a juntar aos restantes custos dos factores de produção que aumentam constantemente”.




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