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Da confiança

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Valdemar RodriguesProf. UniversitárioConferem alguns analistas que o impacto da crise financeira na economia real dependerá sobretudo da rapidez com que se restaurar a confiança no sistema bancário – quer dos próprios bancos entre si quer dos utentes do sistema. A confiança surge assim como factor decisivo, e os bancos o eixo em torno do qual […]

Valdemar RodriguesProf. UniversitárioConferem alguns analistas que o impacto da crise financeira na economia real dependerá sobretudo da rapidez com que se restaurar a confiança no sistema bancário – quer dos próprios bancos entre si quer dos utentes do sistema. A confiança surge assim como factor decisivo, e os bancos o eixo em torno do qual todo o bem se organizará. Alguns, cépticos, comparam os bancos às mulheres, notando ser mau quando começa a falar-se na rua demasiado nelas. O povo, desigualmente informado como convém, encolhe muito bordalopinheiramente os ombros e pergunta, enquanto a casa arde: porque hei-de confiar no incendiário para apagar este fogo? Mas a “autoridade” responde-lhe, vergada à evidência: alguém melhor do que ele a conhece? Esta história, como tantas outras que vêm afrontando o mundo “moderno” nas últimas décadas, tem uma explicação complexa, e o problema é que o povo não adere facilmente à complexidade. O povo habituado a coisas simples e dicotómicas, fáceis como convém à domesticação, tem dificuldade em compreender a complexa armadilha que lhe montaram, mas para a qual ele inadvertidamente contribuiu e contribui. Pois a sua simplificada visão do mundo confunde justiça com legalidade, inteligência e felicidade com riqueza material, beleza com bondade, autoridade com força. E perdeu o sentido da memória, que só o exercício possibilita.

Foram muitas as confusões, e melhor que nenhum outro o manhoso “sistema” tirou delas partido. Em benefício próprio, naturalmente. Mas se por acaso as sociedades “modernas” conseguiram infantilizar o povo (“We are the world, we are the children…), através de slogans imediatistas do tipo “Viva o momento now!” e “Não invente! Vá ao Continente”, o mais certo é terem de se haver com o poder colossal que emana dessa “inocência”. E é natural que na “emersão” surjam coisas estranhas, como ver algumas crianças tornarem-se subitamente adultas, fruto da realidade que lhes desaba sobre a cabeça. Veremos.Sobre a mentira corrente da nacionalização dos bancos falidos e da socialização correspondente dos “prejuízos”, há que desocultar o megaprojecto neofeudal em curso, bem como o facto de os Estados nacionais serem indispensáveis para a concretização do desiderato. Tal como aconteceu na Europa, as famílias americanas adquiriram as suas casas na ilusão de manterem o seu emprego, ou até de conseguirem um emprego melhor graças à aposta que fizeram na formação. Daí que soem repugnantes as palavras de gente como o dr. João Salgueiro, presidente da Associação de Bancos Portugueses, que agora atira indiscriminadamente as culpas da crise financeira para tais famílias. O dr. João Salgueiro, e tantos outros como ele, sentar-se-ão um dia à direita do Pai, depois de vencidos os blasfemos Adão e Eva (e sua descendência) que não resistiram ao encanto da serpente e nos trouxeram esta miserável condição de mortais. O dr. João Salgueiro, e tantos outros como ele, anseiam pelo Jardim, pela beleza e tranquilidade que havia quando o Bem e o Mal estavam reunidos num só tronco. Sobreaquecidas pelo fulgor banco-imobiliário, um fulgor cobardemente consentido e apoiado pela classe política ocidental, as economias começaram a ver nuvens negras no horizonte, ao mesmo tempo que o desemprego ameaçava as famílias e o preço das casas desvalorizava. Para ajudar o Estado fazia a política cega do combate ao défice (agora posta na gaveta, pois nesta fase já não interessa ao diabólico plano), esmagando as classes médias com impostos e atacando com eficácia os mecanismos de justiça e de coesão social. Agora as famílias estão falidas, as fábricas encerradas (para estas nunca houve apoio estatal, posto isso contrariar a ortodoxia liberal prevalecente) e os bens de capital cuidadosamente desvalorizados, como convinha ao plano. Alguns bancos entram em falência, e os Estados correm a ajudálos, sem que a OMC rosne ou pie e com a silenciosa benção do FMI e do Banco Mundial. As famílias com as casas desvalorizadas, algumas mesmo já sem casa, sem qualquer tipo de protecção social sustentável que lhes valha e todas em risco de desemprego, perdem agora a esperança e procuram entre si culpados (sangrenta procura, e ingénua). Mas o plano prossegue, inexorável. Com o muito que ainda existe na posse de gentes “impuras” há que salvar os bancos falidos para depois ser o Estado a vender aos novos senhores feudais, por módicos preços de saldo (quanto custará hoje construir uma casa?) e em nome da recuperação do valor das ajudas dadas ao “sistema financeiro”, lotes de bairros inteiros e talvez mesmo cidades. Mais. Os Estados “terão”, com a colossal dívida que estas injecções de dinheiro nos mercados financeiros representam, e com os juros cada vez maiores que vão tendo de pagar à banca, de “alienar” aquilo que ainda resta dos serviços públicos, e que na Europa é ainda alguma coisa. Há que garantir com toda a segurança a escravidão. Nós perguntamos: para onde está a ir tanto dinheiro que persiste em escapar às “economias reais”? Será que é para o ouro, para a prata, para as grandes herdades cujos donos nos são (ainda) invisíveis; para os proprietários dos presentes e futuros do petróleo e dos cereais, do urânio, etc. Será que é direitinho para aqueles que vão “ajudar” o Estado a resolver a crise que criaram? De facto a banca junca gostou de sujar as suas mãos de sangue, e não tem vocação para vender casas e terrenos. Vai ser o Estado e o seu colossal poder coercivo a fazê-lo. No trânsito talvez alguns políticos consigam assegurar o seu lugar nesse Jardim dos puros em construção acelerada. Mas a inocência, tal como a honra e a confiança, não se compram nem se vendem. De nada adianta pois lavarem as mãos antes de irem para a mesa.

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