Rui RasquilhoPresidente Fundador da ADEPAQualquer acção de conservação e reabilitação do Mosteiro de Alcobaça, nos edifícios construídos entre o século XVI e o XVIII, deve fundamentar-se sobre uma definição precisa do monumento e das suas relações com a cidade.
Integrar o edifício, classificado como património mundial na cidade de Alcobaça, obriga necessariamente a avaliar o seu valor, a fixar objectivos e a adoptar uma estratégia que englobe programas de conservação e de gestão de eventuais alterações a médio e longo prazo.A reutilização dos espaços que foram ocupados pelo lar residencial, obrigará a procedimentos regulares de inspecção que garantam a conservação permanente, obstando à deterioração pelo usufruto de bens, por outras funções que não as originais.“O objectivo da conservação é a salvaguarda da qualidade e dos valores do mosteiro cuja estrutura deverá ser protegida e passada em boas condições às gerações que nos sucederem.”Trata-se de uma “substância imaterial” representativa de valores acumulados até ao presente que deverão ser considerados nas propostas de ocupação futuras.Apesar do tempo, Alcobaça guarda as suas qualidades intrínsecas, a qualidade dos materiais construtivos, dos cuidados havidos na sua conservação e no relacionamento do edifício com a cidade.A unidade do monumento, tal como o herdámos no século XIX mantém-se, pois as modificações foram insignificantes.O edifício foi ampliado entre os séculos XII e XVIII. Meio milénio de obras sequenciais provocaram uma estratigrafia histórica que nos conduzem hoje, a encarar operações de restauro diferenciadas que deverão contudo, ter em linha de conta os princípios estabelecidos em sucessivas convenções da UNESCO.Esta reserva leva-nos naturalmente a transcender o edifício para considerar a paisagem humana que deverá beneficiar cultural e economicamente.O Mosteiro de Alcobaça, criado no século XII e em aumento sucessivo praticamente sem pausa até à construção do edifício da biblioteca na viragem do século XVIII para o XIX, continua a acrescentar-se na percepção que sobretudo os alcobacenses dele têm, em cada momento de sucessivas gerações.E o tempo histórico de Alcobaça? Esta irreversibilidade, apresenta-se naturalmente hoje, em perfeita conjugação com as actuais condições culturais, sociais, económicas e políticas que constituem o tecido humano da cidade nascida do seu mosteiro e que torna Alcobaça um elemento original na história cisterciense, modelo complexo de um tempo único e irreversível.O Mosteiro de Alcobaça e a cidade que dele nasceu são autênticos, são originais, porque envelheceram durante a sucessão dos séculos e evoluíram durante oitocentos anos que lhes acrescentaram estratificação histórica.Santa Maria de Alcobaça é um bem classificado como património mundial desde 1989, por isso, teremos sempre que ter em conta o seu valor cultural conjugado com os valores sócio-económicos contemporâneos quando se proceder à análise da reutilização dos espaços conventuais a nascente do núcleo medieval.A conveniência da existência destes dois valores enunciados permitirá perspectivar a salvaguarda e conservação do património cisterciense quando estudamos a política de ocupação dos espaços e a subsequente implantação de outros serviços.Proteger, preservar, conservar, consolidar, restaurar, reconstruir são uma série de operações que subordinarão a reutilização de Alcobaça ao chamado “tratamento de autenticidade”.O Art.4º da “Conservação do Património Mundial” é clara: “O objectivo primeiro da gestão do bem cultural é o de garantir que os valores pelos quais o bem foi usado na lista, se mantenham autênticos“.Será pois, necessária uma grande prudência no planeamento futuro de Santa Maria de Alcobaça.Voltaremos a este assunto;
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